quinta-feira, 23 de junho de 2016

NO ENCONTRO COM O CONTO, RECONTO MINHA HISTÓRIA

Resumo: As histórias de ensinamento são portadoras de instruções para a vida do homem sendo metáforas do comportamento humano, de maneira que ao contarmos uma história entramos em contato com a nossa própria história que é recontada de forma simbólica. Com esta ideia em mente, iniciei o trabalho com os contos de ensinamento através de cursos vivenciais e nos atendimentos individuais e em grupos abrindo espaço para as pessoas perceberem as relações existentes entre os personagens, elementos, temáticas encontradas no conto trabalhado com a sua própria história.

Palavras-chave: arteterapia – contos de ensinamento -– autoconhecimento

Abstract: The stories of teaching are carriers of instructions for human life and metaphors of human behavior, so that in telling a story get in touch with our own history that is recounted in a symbolic way. With this in mind, I started working with the tales of teaching through experiential courses and individual assistance and group opening up space for people to discover the relationships between the characters, elements, themes found in the story worked with its own history

Keywords: art therapy – teaching tales - self knowledge

Resumen: Las historias de la enseñanza son portadores de las instrucciones para la vida humana y las metáforas de la conducta humana, por lo que en contar una historia en contacto con nuestra propia historia que se narra de una manera simbólica. Con esto en mente, empecé a trabajar con los cuentos de la enseñanza a través de cursos de la experiencia y la asistencia individual y de grupo abriendo espacio a la gente a descubrir las relaciones entre los personajes, elementos, los temas se encuentran en la historia trabajó con su propia historia.


Introdução 


            Na superfície, as histórias de ensinamento muitas vezes parecem ser pouco mais do que contos de fadas ou folclóricos. Mas, elas são concebidas para incorporar em seus personagens, enredos e imagens — padrões e relacionamentos que nutrem uma parte da mente que é inatingível por meios mais diretos, aumentando assim a nossa compreensão e campo de visão, além de estimularem a nossa habilidade de pensar criticamente‖ (9) Os berberes, povos nativos do norte da África acreditam que quando uma pessoa nasce ela traz consigo uma história, guardada dentro do seu coração. Essa história tem a função de cuidar, proteger, nutrir a pessoa. A tarefa de cada indivíduo é procurar e encontrar a história que está guardada no seu coração. Encontrar a sua história é como encontrar o próprio fio da existência, reafirmando e recontando a sua própria história como o lenhador que ao sentir-se perdido, sem esperanças, senta ao lado do feixe de lenha e conta para si mesmo como se fosse um conto tudo o que lhe aconteceu desde que sua filha havia desejado um tipo diferente de alimento para comer. Ao recontar a própria história através do conto é como encontrar uma chave que abre a porta para nosso mundo interno, onde encontramos um grande potencial de cura. O conto vai penetrando de forma sutil e silenciosa, infiltrando-se em camadas profundas da nossa psique. Atuando como metáforas do comportamento humano, os contos vão conduzindo através de seus personagens, elementos e lugares a uma experiência de autoconhecimento como um espelho onde cada pessoa se vê refletida de acordo com sua trajetória e seu momento de vida. Segundo Clarissa Pinkola Estés, ―As histórias conferem movimento à nossa vida interior, e isso tem importância especial nos casos em que a vida interior está assustada, presa ou encurralada. As histórias lubrificam as engrenagens, fazem correr a adrenalina, mostra-nos saídas e, apesar das dificuldades, abrem para nós portas amplas em paredes anteriormente fechadas, aberturas que nos levam à terra do sonho, que conduzem ao amor e ao aprendizado. (8)


Desenvolvimento 


            Os contos funcionam como um símbolo que embora tenha uma parte que é acessível ao consciente, de outra parte ele traz informações próprias do espaço do inconsciente. Segundo Jung, um símbolo não traz explicações: impulsiona para além de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira satisfatória‖ (2) Os símbolos têm vida própria, eles atuam e alcançam dimensões que o conhecimento racional não atinge. Por isso, que as histórias atingem núcleos que não são possíveis de serem alcançados pela mente lógica, linear. Na concepção junguiana, o símbolo é uma linguagem universal infinitamente rica, capaz de traduzir através das imagens, conteúdos que transcendem das problemáticas específicas dos indivíduos. O símbolo funciona como uma espécie de código que emerge do inconsciente. Somos escolhidos pelo conto quando estamos conectados com as necessidades de nossa essência e assim o conto nos trará as mensagens que precisamos em determinados pontos e momentos da vida. Quando a pessoa recebe o chamado do conto, é preciso mergulhar profundamente nas palavras, nos elementos, nos personagens, entrando em contato com a mensagem contida no conto. Ao fazer o mergulho no conto, cada personagem, cada lugar, cada elemento estará simbolicamente conectado com uma parte da história de vida do mergulhador trazendo facetas de si mesmo. Assim começamos o trabalho com a caixa de contos onde cada pessoa irá encontrar aquele que trará a mensagem para o seu momento de vida. Ao ler e reler várias vezes o conto, atentos às sensações, sentimentos e lembranças que chegam, assumimos o papel de protagonistas. É a nossa história que contamos. Ao entrar no conto, vamos acordando os reis e rainhas que permanecem vivos em algum lugar dentro de nós. É a parte mais íntima do nosso ser que encontramos no espelho dos contos e que nos conduz à libertação e ao desabrochar pleno. Existe uma identidade perfeita entre nós e o conto. O conto é a nossa história. É a encenação metafórica de aspectos nossos que ignoramos, recusamos, ou que não sabemos ver tal e qual são. Se conseguirmos penetrar no espelho e reconhecer a nossa imagem, se escutarmos o conto para nele encontrarmos aspectos concretos da nossa existência, bastar-nos-á pôr em prática as suas propostas e viver a nossa vida segundo esse modelo de verdade.‖(7) Quando o conto estiver penetrado no coração, na alma e no corpo ele será dividido em oito capítulos, trazendo a cor de cada capítulo, a palavra chave e a imagem do capítulo. Ao observar as imagens contidas nos capítulos, a pessoa vai recontando sua história, percebendo questões que não chegam de forma racional. Compete a cada um entrar em contato em com a parte mais profunda do ser essencial através do espelho do conto. Ao entrar em contato com aspectos que não reconhecemos ou negamos através das imagens, dos personagens do conto, encontramos aspectos reais da nossa própria existência. O conto tem a função de acordar a nossa verdade mais profunda, levando-nos a reconhecê-la, experimentá-la colocando-a em movimento e nos tirando de condicionamentos mentais e de visões distorcidas da realidade. A análise simbólica do conto nos coloca diante de um atalho para o próprio interior, fazendo um convite para o mergulho ao mundo interno onde os potenciais de desenvolvimento evolutivo estão latentes. A apresentação final traz o conto transformado em imagens e cada pessoa pode olhar a sua própria história refletida no espelho dessas imagens.


Resultados e Conclusões 


            Cada pessoa entende os recados enviados pelo conto trabalhado naquele determinado momento da própria vida, faz a leitura simbólica e acolhe o que chega. Quando o trabalho é realizado em momentos vivenciais, acolhemos e no processo terapêutico aprofundamos. Alguns participantes falam de suas experiências: "As questões simbólicas abordadas durante os estudos abriram caminhos internos, e alguns porquês foram esclarecidos, revelados. O conto com o qual trabalhei individualmente revelou alguns aspectos da minha vida aos quais eu não estava atenta, e a representação visual dos capítulos os tornaram ainda mais evidentes. ―Entender um pouco mais sobre os contos e sua simbologia nos fez perceber que estamos no caminho certo dentro da nossa pesquisa de trabalho. Os contos são de fundamental importância desde a primeira infância, com seus significados e simbolismo ajudam nossos pequenos a tornarem-se adultos mais saudáveis, felizes conscientes do mundo e de si!‖ ‖Pessoalmente tive a confirmação de que todas as histórias nos trazem ensinamentos e refletem sempre um pouco de nós como pessoas, contadores, pois acredito que não é o contador que escolhe a história e sim o contrário, pois quando uma história me toca e me diz algo (mesmo que inconscientemente) é que posso dizer algo através dela! Estar atento à mensagem contida no conto e nas imagens que são evocadas é permitir que reverbere dentro de nós, que toquem em partes profundas do nosso ser e assim vamos fazendo a integração entre a luz e a sombra e nos conectando com a totalidade psíquica. Cada pessoa vai encontrar no conto o que se permitir ver e aprenderá tanto quanto se abrir para este ensinamento. Tenho observado no exercício com os contos de ensinamento que quando a pessoa se identifica com os personagens e com os elementos contidos nela, ela aos poucos vai encontrando forças internas para ultrapassar seus limites, vencer seus medos, enfrentando os desafios que a impedem de resolver determinada situação. Esta força já está no seu universo interno e o conto é uma chave para acessá-la.


Referências Bibliográficas 

1. SHAH, Tahir. Nas Noites Arábes: uma caravana de Histórias. Rio de Janeiro: Editora Roça Nova, 1009. 

2. SILVEIRA, Nise da, JUNG Vida e Obra. 7.º Edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1981. 

3. Histórias da Tradição Sufi. Coordenação Nícia Grillo. Seleção e Tradução: Grupo Granada de Contadores de Histórias. Rio de Janeiro: Edições Dervish, 1993. 

4. Histórias de Nasrudin; tradução de Mônica Udler, Cromberg, Henrique Cukierman. Rio de Janeiro: Dervish, 1994. 

5. Era uma vez...Os contos como terapia. Apresentação: Salomão Bernstein e Jesús Montoya Instituto Girassol do Brasil, Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2006. 

6. MACHADO,Regina.Acordais: Fundamentos Teóricos - Poéticos da Arte de Contar Histórias. São Paulo: DCL, 2004. 

7. http://tapetedesonhos.wordpress.com/2007/0 9/10/pratica-do-conto-como-autoconhecimento/

8. ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1999 

9. RobertOrnstein in http://www.idriesshah.info/QuoteMe/OrnStor. htm Robert Ornstein on teaching stories


Autora

Rozemar Maria Candido 
rozecandido@gmail.com.br



















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